
PROCESSO DA RECAÍDA / INTERRUPÇÃO DO PROGRAMA DE RECUPERAÇÃO
Este estudo refere-se à análise da recaída como sendo um fenômeno processual, em cadeia, de sucessivas etapas e concatenado. Embora, algumas das etapas possam ser superadas de forma muito ágil e rápida, isso não descaracteriza o processo de recaída ao nível de um mero evento isolado.
Na prática, empiricamente, é possível notar que a maioria das pessoas que apenas suspenderam o consumo de álcool (cessação temporária) tendem a recair antes de atingirem 02 (dois) ou 03 (três) anos de vida abstêmia. Entretanto, alguns abstêmios realmente fizeram a interrupção do uso de álcool e isso significa que estas pessoas cessaram definitivamente o consumo de tais substâncias.
Muitos profissionais da área da dependência alcoólica afirmam que a recaída ocorre quando o abstêmio volta a usar álcool, ou seja, no momento da reintoxicação física da pessoa. Entretanto, ouso discordar desta opinião generalizada e extremamente reducionista. Para aabstemiologia a recaída é um processo, por isso denominamos de processo de recaída. No processo de recaída existe uma sequência de atos/eventos que se sucedem no tempo culminando com o último ato que é a reintoxicação física da pessoa. Então, se entendermos a recaída como sendo um processo, existem as seguintes fases:
• Reintoxicação física: é a última etapa do processo de recaída, culminado com o uso efetivo de drogas/álcool. É a recaída real.
• Reintoxicação emocional: são os fatos antecipadores imediatamente anteriores ao uso de álcool, tais como comprar ou pedir álcool. É a “recaída emocional”.
• Fatos auxiliadores antecedentes: são as artimanhas para o uso. Por exemplo, discussões desnecessárias, mentiras, ardil, fuga, obtenção de meios, aumento da irritabilidade ou isolamento.
• Fatos cognitivos estratégicos: ocorrem internamente, apenas na mente da pessoa, como desorganização mental e cogitações de uso. A pessoa imagina como poderia fazer para voltar a consumir álcool, qual seria a sensação ou como faria para controlar o consumo e não abusar.
• Fatos cognitivos permissivos: constituem-se pela manutenção de reservas, teimosia, irracionalidade, crença equivocada de que ainda possui o controle sobre a quantidade de álcool a ser consumido e ausência de flexibilização conceitual. É uma espécie de orgulho, mas, como é um orgulho exagerado, é comum dizer que é orgulho inflado.
A pessoa não recaiu no exato momento em que ela usou álcool (reintoxicação física). É pior, ela já havia iniciado o processo de recaída muito tempo antes do “uso”. Se pessoa usou álcool hoje, é porque ela iniciou seu processo de recaída há muitos dias.
Durante o processo de abstinência, a pessoa tende alterar suas crenças desadaptativas substituindo-as por novas crenças saudáveis e racionais. A vida abstêmia serve para substituir o conjunto de juízos de valores inadequados por novos valores. Por exemplo, o abstêmio precisa substituir a crença de que pode fazer “o que gosta” pela crença de que deve fazer “o que precisa”. Outro exemplo, o abstêmio deve substituir a crença de que “pode beber na sexta-feira porque trabalhou toda a semana”, pela crença de que “mesmo tendo trabalhado tanto não preciso beber”.
O processo abstêmio se materializa através de pequenos passos e, simultaneamente, na confiança de que esses passos, um dia, terão sentido. Desta maneira, a técnica do “evitar o primeiro gole”, desde que corretamente aplicada, pode gerar após certo lapso temporal abstêmio o aumento da lucidez. De fato, a lucidez abstêmia serve de base para mudanças de paradigmas, ou seja, para mudar hábitos, pensamentos, sentimentos, emoções e condutas. O abstêmio deve renunciar ao estilo de vida anterior substituindo crenças irracionais por crenças funcionais. São exemplos de crenças funcionais:
• “um dia de cada vez”;
• “só por hoje”;
• “vá com calma, mas vá”;
• “devagar se vai longe”;
• “aqui e agora”;
• “devo assumir minha impotência”;
• “minha autopiedade gera recaída”;
• “toda adicção tem solução”;
• "devo praticar atos responsáveis”;
• “não posso e não devo usar álcool”;
• “devo manter meu foco na prioridade absoluta: abstinência”.
Podemos classificar os efeitos da recaída em três classes: gravíssimos, graves e moderados.
Os efeitos gravíssimos correspondem, além da recaída em si, aos fatos que não cessarão com o simples transcurso da abstinência já que pertencem ao ponto cego ou morto da abstinência. Por exemplo, a recaída perdurou por muitos dias, meses ou anos, houve instauração de processo penal decorrente de crime praticado durante a recaída, ocorreu à morte de terceiros ou surgiram novas comorbidades incuráveis devido à recaída. Cito o exemplo de pessoas que foram condenadas por crimes cometidos durante a fase de adicção. Entretanto, a sentença condenatória só foi exarada quando a pessoa já estava há vários anos vivendo em sobriedade, ou seja, após vários anos de vida abstêmia a pessoa foi obrigada a recolher-se a prisão por crimes cometidos durante a fase de adicção. Infelizmente, isso é comum. Por sua vez,
os efeitos graves correspondem aos fatos que foram praticados durante a recaída e que repercutiram nas conquistas alcançadas pelo período anterior de abstinência. Por exemplo, a pessoa possuía um bom emprego, finanças equilibradas e afetividade reconstituída, mas, devido ao processo de recaída, perdeu tudo o que tinha adquirido. Por último,
os efeitos moderados correspondem aos fatos que foram causados durante o processo de recaída, mas que serão amenizados ou superados pelo simples transcurso do novo período abstêmio. Por exemplo, a pessoa não gastou muitas economias, não sofreu o agravamento de nenhuma comorbidade ou ficou recaída por pouquíssimo período. Todos sabem que as recaídas são sempre algo desastroso e perigoso. Inclusive devemos ser intolerantes com qualquer forma de recaída já que não existem desculpas capazes de justificar o retorno à adicção.
“RECAÍDA DE OURO”? .
Contudo, será que existe alguma recaída que pode ser compreendida como sendo positiva? Pode existir alguma recaída que seja promissora? Você já deve ter ouvido alguém falar que não usa álcool há “07 anos e 12 dias” ou “09 anos e 17 dias”. De fato, alguns abstêmios contam seus períodos de abstinência de modo muito preciso. Essa forma de contagem exata do período de abstinência tem alguma utilidade? Por qual motivo é feita essa contagem?
A recaída “de ouro” consiste na última recaída que a pessoa teve/sofreu. Após essa recaída o abstêmio começa seu caminho de abstinência. A última recaída consiste no fim do período de adicção e sinaliza o início da vida abstêmia. No exato momento em que termina a recaída “de ouro” inicia-se o período de desintoxicação e, logo após, a própria vida abstêmia. O lado bom e positivo dessa recaída é que ela será a última antes de iniciar o processo de abstinência. Porém, a última recaída só será “de ouro” se o abstêmio retomar seu processo de abstinência e conseguir manter-se sóbrio de maneira constante, contínua e permanente.
Já vimos que toda recaída é extremamente grave ou gravíssima, podendo resultar em diversas tribulações (morte, doença psiquiátrica, prisão ou agravamento de doenças clínicas). Aliás, é isso que explica a teoria do nível dos efeitos da recaída. Contudo, se a pessoa retornar e conseguir permanecer em abstinência, essa recaída será muito marcante porque terá a peculiaridade de ser analisada e relembrada sucessivas vezes em futuras partilhas realizadas em grupos terapêuticos.
Observação: em casos raríssimos a pessoa consegue iniciar e desenvolver sua abstinência logo após a sua primeira e única desintoxicação. Excepcionalmente, nesses casos, não teremos uma recaída “de ouro” já que o abstêmio nunca recaiu. Teremos pura e simplesmente o início da vida abstêmia. Repito: são casos raros, mas existem e conheço pessoalmente alguns deles.
É possível usar álcool sem que isso seja uma recaída? Conheço uma pessoa que foi submetida a cirurgia após estar vários anos em abstinência. Na cirurgia foram usadas várias drogas (medicamentos). Por causa do uso daqueles medicamentos, posso afirmar que essa pessoa recaiu? Essa pergunta ocorre com frequência. Já adiantando a resposta, isso é denominado de uso sem recaída. Quando alguém usa drogas conforme a recomendação médica (nos horários e dosagens indicadas)não há que se falar em recaída. Jamais, no tratamento da dependência química ou alcoólica, usar medicamentos recomendados por profissionais habilitados será “trocar um droga pela outra”.
Observação: se o médico recomendou o uso de alguma medicação para tratar de comorbidades, caso o abstêmio deixe de usá-la conforme foi indicado, poderá haver início do processo derecaída por descaso para com sua própria evolução abstêmia. De fato, a “alta a pedido contra recomendação médica” pode caracterizar um fato auxiliador antecedente ou sinalizar, inclusive, uma recaída emocional. A possibilidade de reintoxicação física pelo álcool é algo que acompanha o abstêmio durante toda sua jornada, ou seja, não existe forma de afastar completamente a probabilidade de eventual desencadeamento do processo de recaída. Em outros termos, a chance de recair sempre estará presente na vida abstêmia daqueles que interromperam o consumo de álcool após terem sido adictos. Por óbvio, devido a fatores subjetivos, que dizem respeito a cada pessoa de forma individual, em alguns momentos da jornada, a probabilidade de recair pode aumentar ou diminuir.
Fonte: APOSTILA ABSTEMIOLÓGICA (78 páginas) PÉRICLES ZIEMMERMANN - PIRÂMIDE DA RECAÍDA ANÁLISE DA RECAÍDA COMO FENÔMENO EM CADEIA - Curitiba-PR - 2024