28 Nov
28Nov

“Por que essa mulher pergunta tanto da minha infância?

Que obsessão é essa?” Quando comecei a fazer terapia, confesso: me incomodava falar de coisas que eu nem lembrava direito. Ela perguntava do meu relacionamento com meus pais, de como eu era na escola, se eu tinha medo de ficar sozinho, sobre o fato de eu ter nascido prematuro (sim, até isso)… e eu pensava: “O que isso tem a ver com o meu sofrimento de hoje? ”Pois é. Hoje eu entendo. 

A ciência explica muito bem por que terapeutas parecem “obcecados” pela infância: não é nostalgia, não é romantização, é neurodesenvolvimento. O cérebro aprende primeiro a sobreviver. O resto vem depois. A maior parte da nossa estrutura cerebral se forma nos primeiros anos de vida. Entre o nascimento e os 3 anos o desenvolvimento neural está a todo vapor; aos 5, boa parte das bases emocionais e comportamentais está estruturada. É como se esse período fosse o “sistema operacional” que vai rodar pelo resto da vida. 

O problema é que, como crianças, somos completamente dependentes. Qualquer coisa que ameace nossa conexão com quem cuida de nós, um grito, uma ausência, um olhar de desaprovação, é registrada como risco de sobrevivência. Então fazemos o que for preciso para garantir amor: ajustamos o comportamento, escondemos emoções, viramos “fortes”, nos tornamos “boazinhas(os)”, passamos a ser hiper agradáveis. E tudo aquilo que parece “dar problema” vai sendo varrido para debaixo do tapete. A sujeira que escondemos vira sofrimento na vida adulta. Uma criança não tem recursos para processar abandono, abuso, medo, rejeição, dor, crítica constante ou instabilidade emocional. Então o cérebro faz o que é mais inteligente naquele momento: reprime. Só que reprimir não é apagar; é apenas esconder. E quanto mais difícil foi sua infância, mais sujeira você precisou esconder para sobreviver. Se você era elogiado por ser “forte”, hoje pode não conseguir pedir ajuda. Se cresceu em um ambiente explosivo, talvez evite conflitos a qualquer custo. Se chorava e era criticado por isso, pode ter se desconectado das próprias emoções. Se precisou ser adulto muito cedo, talvez carregue um cansaço que não sabe explicar. Isso não é drama. Não é frescura. É neurociência. 

A conta chega na vida adulta porque agora você tem estrutura para sentir o que antes era insuportável. Nada disso começou hoje. Começou quando seu cérebro ainda estava aprendendo a sobreviver. E é por isso que a terapeuta volta lá atrás. Não é para culpar seus pais, nem para te fazer reviver dor atoa. É porque a bagunça que você vive no presente tem raízes lá no início da sua história. Só quando levantamos esse tapete, com cuidado, dá para limpar o que foi acumulado e começar a reorganizar a casa interna. 

Entender o passado não muda o que aconteceu, mas muda profundamente a forma como você se relaciona consigo mesmo hoje. E é justamente nesse ponto que o processo terapêutico encontra o seu momento mais transformador: quando você percebe que aquela criança fez tudo o que podia para sobreviver, e que agora não precisa mais viver assim. A sobrevivência foi o primeiro capítulo. Agora começa a parte em que você aprende a viver.

— Alessander Stehlingnar  


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